terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Provilégios ...

Hoje ouvi que na India a vida não é um direito, mas um privilégio ... poderia se dizer o mesmo que o amor.

Ale Esclapes

O quereres


Achei que essa letra do Caetano expressa muito bem o lugar do analista ...






O Quereres
Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O que é mudar?


Freud já definiu que tipo de mudança a psicanálise pode trazer – trocar o sofrimento neurótico pelo sofrimento do mundo. Winnicott dizia por sua vez que o pior doente é aquele que não tinha esperança, não o que sofria mais. São dois exemplos que a psicanálise não coaduna com a noção de não-sofrimento como expectativa de um tratamento psicanalítico.

Mudar significa trocar um sofrimento pelo outro. E esse outro sofrimento não é menor que o primeiro, é apenas diferente. Talvez menos angustiante, uma vez que a angústia é uma cortina que insistimos em não transpassar, e que afora o medo, ao atravessar tal cortina estamos iguais – apenas menos ansiosos.

É aí que entra a esperança em Winnicott, ou dentro do nosso contexto, o desejo de mudança. Muitas vezes o que se deseja é tão somente aplacar o sofrimento, e quando confrontado com a realidade de trocar um sofrimento não escolhido, por um escolhido, muitos desistem e continuam a buscar soluções mágicas. Nem anjos, nem demônios e nem a razão conseguem tal proeza.

É preciso antes de tudo querer mudar, não ter preguiça de mudar, e cortar na carne. Mudar é escolher qual o sofrimento se quer na vida, e não deixar a vida escolher isso para você.

Ale Esclapes

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Mais uma vítima do politicamente correto


O politicamente correto fez mais uma vítima ontem – a presidente (me recuso a usar o termo presidenta) Dilma - ao ser vaiada quando usou o termo “portador de deficiência” em uma cerimônia sobre o tema. Parece que o Brasil assinou um tratado internacional que abolia o termo “portador” e o trocava por “pessoa com deficiência física”.

Acredito que por trás disso deva ter a fantasia onipotente que algo vai mudar na vida dessas pessoas em relação à sua condição física. Quem era um “portador de deficiência física” por ser cego, continua cego ao ser agora tratado como “pessoa com deficiência física”. Do ponto de vista social para mudar a vida dessas pessoas, seria mais interessante fazer coisas mais concretas, como por exemplo, mais cães guias, mais livros em braile, sei lá ... mas algo concreto.

Mas o que está por trás então desse trocar de palavras? Política rasteira e ideológica no mínimo, já que é dela que se ocupam ações que nada mudam a realidade e não beneficiam ninguém. Esse tipo de ação visa doutrinar o discurso público, normatizando o pensar, impregnando nosso cotidiano com noções que podem muitas vezes passar por desapercebido.

Ale Esclapes

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sessão de terapia ...


... eu vou precisar depois do final da versão brasileira do seriado israelense – em terapia. Estava indo tudo tão bem nessa versão e tudo degringolou nos últimos episódios. Não vou aqui falar de toda a falta de ética e técnica que envolve esse seriado, pois ele é uma obra de ficção, tendo em vista que a vida real é morna e meio sem graça para virar um seriado de tv.

Dito isto, o que virou essa relação do Theo com a Júlia? E a cena que ele vai ao apartamento dela? Teria muito mais sentido se fosse para transar com ela. Para pedir para a pessoa voltar para a terapia, marca no consultório. Sofrível ...

... é também o saldo de suas terapias: um paciente se suicida, o casal vai para o buraco, a Julia passou pelo desprazer da visita final do Theo em e a aranha velha nem espezinhou.  Só a Nina se salvou de tamanho desastre. Se meu consultório ficasse assim, iria vender coco na praia. Lógico ...

... que tem momentos brilhantes, como a grande interpretação que deu ao casal João & Cia, mas virou exceção nessa reta final. Apesar do final, que é um problema de roteiro, os atores estavam fantásticos, a direção continuou primorosa, e toda a equipe está de parabéns, exceto o roteirista desse finalzinho.

Ale Esclapes

O dono do Brasil


Durante décadas a esquerda fez um discurso contra o poder estabelecido, com base em ideologias marxistas. Um dos alvos sempre foram os velhos coronéis nordestinos. Pois bem, a cada dia que passa percebe-se o que realmente era e é o projeto de poder dessa esquerda. Vide por exemplo a matéria abaixo, publicada ontem na Folha de São Paulo, e percebe-se que o Brasil tem um novo coronel – o ex-presidente Lula.

Em nota, diz que não vai falar de suas relações pessoais com Rosemary Noronha. Bom, creio que do ponto de vista ético, tais relações deixaram de ser “intimas” quando essa senhora foi nomeada a um cargo público, de tamanha força e poder, inclusive de dobrar o senado da república.

Mas o pior é que o episódio é somente mais um, que demonstra a falta de controle nas nomeações, o loteamento do Estado por parte do PT, e mais uma vez da falta de vergonha quando se é pego. Ninguém sabe nada, ou melhor, o senhor Lula não sabe, não viu e foi traído. E a partir daí se exime de toda culpa, responsabilidade e vergonha. 

Uma coisa que me espanta é que a polícia federal ainda esteja funcionando - se é que essa senhora não caiu por pura politicagem interna do PT.

O Brasil tem um dono que se chama Luíz Inácio Lula da Silva.

Ale Esclapes

Relação com Lula explica influência de ex-assessora
Intimidade de Rosemary com o ex-presidente teve início na década de 90
Procurado pela Folha, porta-voz de Lula diz que ex-presidente não faria comentários sobre assuntos particulares
Jorge Araújo - 3.jun.2009/Folhapress
Rosemary Noronha, em viagem à Costa Rica, em 2009
Rosemary Noronha, em viagem à Costa Rica, em 2009
DE BRASÍLIADE SÃO PAULO


A influência exercida pela ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, no governo federal, revelada em e-mails interceptados pela operação Porto Seguro, decorre da longa relação de intimidade que ela manteve com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Rose e Lula conheceram-se em 1993. Egressa do sindicato dos bancários, ela se aproximou do petista como uma simples fã.


O relacionamento dos dois começou ali, a um ano da corrida presidencial de 1994.


À época, ela foi incorporada à equipe da campanha ao lado de Clara Ant, hoje auxiliar pessoal do ex-presidente. Ficaria ali até se tornar secretária de José Dirceu, no próprio partido.


Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente, jamais escondeu que não gostava da assessora do marido.


Em 2002, Lula se tornou presidente. Em 2003, Rose foi lotada no braço do Palácio do Planalto em São Paulo, como "assessora especial" do escritório regional da Presidência na capital. Em 2006, por decisão do próprio Lula, foi promovida a chefe do gabinete e passou a ocupar a sala que, na semana retrasada, foi alvo de operação de busca e apreensão da Polícia Federal.


Nesse papel de direção, Rose contava com três assessores e motorista.


Sua tarefa era oficialmente "prestar, no âmbito de sua atuação, apoio administrativo e operacional ao presidente da República, ministros de Estado, secretários Especiais e membros do gabinete pessoal do presidente da República na cidade de São Paulo".


Durante 19 anos, o relacionamento de Lula e Rose se manteve oculto do público.


Em Brasília, a agenda presidencial tornou a relação mais complicada.


Quando a então primeira-dama Marisa Letícia não acompanhava o marido nas viagens internacionais, Rose integrava a comitiva oficial.


Segundo levantamento da Folha tendo como base o "Diário Oficial", Marisa não participou de nenhuma das viagens oficiais do ex-presidente das quais Rosemary participou.


Integrantes do corpo diplomático ouvidos pela reportagem, na condição de anonimato, afirmam que a presença dela sempre causou mal-estar dentro do Itamaraty. Na opinião deles, a ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo não era necessária.


Oficiais da Aeronáutica se preocupavam com o fato de que ela por vezes viajava no avião presidencial sem estar na lista oficial. Em muitas vezes, Rose seguia em voos da equipe que desembarca antes do presidente da República para preparar sua chegada.


Nessas viagens, seguranças que guardavam a porta da suíte presidencial nas missões fora do Brasil registravam ao superior imediato a presença da assessora. Oficiais do cerimonial elaboravam roteiro e mapa dos aposentos de modo a permitir que o presidente não fosse incomodado.


Durante esses quase 20 anos, Rose casou-se duas vezes. Seu primeiro marido, José Cláudio Noronha, trabalhou na Casa Civil do então ministro José Dirceu quando Rosemary assumiu o escritório de São Paulo.


Na chefia do gabinete, ela construiu a fama de pessoa de temperamento difícil. Lula chegou a receber de amigos reclamações dando conta de que ela tratava mal os funcionários.


Um deles descreveu um episódio em que ela teria pedido para serventes limparem "20 vezes" o chão do escritório até que ficasse realmente limpo.


Apesar do temperamento, Rose era discreta e não gostava de contato com a imprensa. Em algumas festas e cerimônias, controlava a porta de salas vips, decidindo quem podia ou não entrar. Também costumava se consultar com o médico de Lula e da presidente Dilma Rousseff, Roberto Kalil.


Rose acompanhou o ex-presidente em algumas internações durante o período em que este se recuperava do tratamento de um câncer no Sírio-Libanês, em São Paulo. Mas só pisava no hospital quando Marisa Letícia não estava por perto.


Na campanha presidencial de 2006, a chefe de gabinete circulou nos debates televisivos que Lula teve com o tucano Geraldo Alckmin.


Ministros e amigos do ex-presidente não negam o relacionamento de ambos. Foi de Lula a decisão de manter Rosemary em São Paulo, conforme relatos de pessoas próximas.


Procurado pela Folha, o porta-voz do Instituto Lula, José Chrispiniano, afirmou que o ex-presidente Lula não faria comentários sobre assuntos particulares.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

... e o PIB de 0,6%

Um dos mecanismos clássicos de defesa do ego é a onipotência, que é prima da negação (ou denegação). O último nega a realidade e cria um mundo de faz de contas, enquanto o primeiro cria a ilusão que somos deuses em nosso mundo criado. E como já nos ensinou Freud, essa perda da realidade se dá na neurose e na psicose.

O Brasil elegeu uma presidente e levou uma gerente. E gerentes podem ser ótimos administradores, mas são péssimos no que tange a ver um horizonte maior que gráficos e tabelas, ou simplificando, gerente não é estadista. O Brasil está sem rumo, loteado pelas “Roses” da vida. E pior, perdeu-se a vergonha, estamos em um momento da história em que a elite política não tem mais vergonha de si ... pela primeira vez na história desse país.

Se não temos rumo, tampouco temos oposição, que presta um desserviço à nação com sua apatia. Aliás, nunca na história desse país os conceitos de país e nação foram tão judiados. Lembra daquela frase “não pergunte o que o país pode fazer por você mas o que você pode fazer pelo país”? Então ... ficou brega e piegas, virou discurso de direita ... e ser de direita é algo execrável, coisa de torturador e da ditatura militar.
Como se não bastasse, dividem o nosso país entre brancos e negros. Ah, outro mecanismo de defesa do ego clássica, chamada cisão. Geralmente se cinde (divide) para melhor governar.  Ideologia virou coisa do passado, tanto da direita, quanto da esquerda, palavra feia, como puta, ainda que puta seja mais pronunciada e conhecida que ideologia.

Mas, como ninguém pode enganar a realidade por muito tempo, sem a ajuda do cenário externo espetacular da década passada, a demagogia e o populismo do atual governo mostram o que realmente conseguem – um PIB anual de no máximo 1%, enquanto os outros Bricis fecham com tranquilidade acima de 5%.

Como conseguimos ser uma nação que vive com mais assassinatos por ano que a soma de todos, eu disse TODOS os grandes conflitos bélicos do mundo? Como vivemos em uma sociedade onde nada se resolve em termos estruturais econômicos? Como esse governo tem mais de 60% de aprovação? O Brasil atual é um caso único no mundo, e merece ser muito estudado nesse sentido.

Ale Esclapes

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quem são os “investidores”?


Durante as últimas duas décadas sempre se falou que o Estado (não importa qual – Brasil, EUA, etc ...) deveriam fazer uma série de ajustes e medidas para ganhar tal ou qual nota de classificação de uma ou outra agência a fim de atrair os chamados “investidores”. Sempre se diz que os “investidores” são avessos aos riscos, que preferem ganhos elevados, mas sempre “sem riscos”.

Fez-se de tudo um pouco no mundo em prol dessa falácia sobre esses chamados “investidores”. Ajustes brutos nas contas de Estados, licitações de serviços onde todo o risco do negócio recaia sobre os Estados (leia-se para mim e para você), aumento de impostos, etc. Nem governos ditos “de esquerda” deixaram de seguir essa cartilha. Talvez nunca na história desse país se pagou tantos juros quanto na última década, um gasto muito, mas muito maior que qualquer bolsa família.

Pois bem, isso me lembra os conceitos freudianos de deslocamento e condensação, onde uma determinada entidade do Ics se apresenta como outra no Cs. É o caso aqui desses chamados “investidores”. Como no caso freudiano, basta certa dose de questionamento socrático para se descobrir que se trata de tudo, menos, investidores.

Primeiro todo investidor de verdade sabe que o ganho é proporcional ao risco – sem risco, sem ganho.  Simples assim.  Logo, seria de se pensar que grandes riscos atrairia grandes investidores.  Talvez o que esses “investidores” estejam procurando seria outra coisa – oportunidade.

Oportunidade de ganhar sem riscos, oportunidade de ganhar sobre estados mal administrados, corruptos e populistas, que não dispõe de recursos para fazer a sua política ralé. Ou alguém imagina que os Estados de “bem estar” europeus eram (ou são) sustentáveis ao longo prazo?

Nesse momento me lembro de Bauman nos ensinando sobre o descasamento entre o poder e a política. Essa (a política) já se vendeu faz tempo aos oportunistas, já transferiu o seu poder de decisão a essa classe invisível. Será que ainda dá para se falar em democracia nesses casos?

Ale Esclapes