Freud já definiu que tipo de mudança a psicanálise pode
trazer – trocar o sofrimento neurótico pelo sofrimento do mundo. Winnicott
dizia por sua vez que o pior doente é aquele que não tinha esperança, não o que
sofria mais. São dois exemplos que a psicanálise não coaduna com a noção de
não-sofrimento como expectativa de um tratamento psicanalítico.
Mudar significa trocar um sofrimento pelo outro. E esse
outro sofrimento não é menor que o primeiro, é apenas diferente. Talvez menos
angustiante, uma vez que a angústia é uma cortina que insistimos em não
transpassar, e que afora o medo, ao atravessar tal cortina estamos iguais –
apenas menos ansiosos.
É aí que entra a esperança em Winnicott, ou dentro do nosso
contexto, o desejo de mudança. Muitas vezes o que se deseja é tão somente
aplacar o sofrimento, e quando confrontado com a realidade de trocar um
sofrimento não escolhido, por um escolhido, muitos desistem e continuam a
buscar soluções mágicas. Nem anjos, nem demônios e nem a razão conseguem tal
proeza.
É preciso antes de tudo querer mudar, não ter preguiça de
mudar, e cortar na carne. Mudar é escolher qual o sofrimento se quer na vida, e
não deixar a vida escolher isso para você.
Ale Esclapes

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