quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Política dos afetos ...


"A verdadeira tarefa política é a reconstrução de nossos afetos." 


É com essa frase que o colunista e filósofo Vladimir Safatle abre o seu artigo de hoje na Folha de São Paulo, argumentando que o que acontece pós-primavera árabe (será que ainda estamos nela?) seria o surgimento de uma nova política, e que em suas palavras ... "A política baseada no ressentimento é, de fato, algo a ser pensado. Talvez possamos dizer que, em política, o ressentimento é sempre o sentimento mobilizado contra a errância."

Colocando o que entendi em cores fortes, parece uma visão anarquista light das relações políticas, e o medo da errância uma visão conservadora. A questão é que quando paro para pensar, o texto não parece tão light assim. Mas antes de tecer mais comentários, segue o fechamento da coluna - "No entanto, esse tempo confuso produzirá sua própria superação, por mais que ela demore, por mais que refluxos ocorram, mas à condição de produzirmos novos afetos.Nesses momentos, cria-se uma divisão entre os que se voltam aos velhos afetos de sempre e aqueles capazes de adquirir uma nova confiança, uma nova força, mesmo quando o céu é turvo. Pois eles sabem que nunca haverá nova política com os velhos sentimentos de sempre."

Desculpem o excesso de citações, mas creio ser prudente e transparente dessa forma. Bom, vamos lá ... por que esse discurso analisado um pouco mais afundo não é tão light assim? Porque parece um discurso de um lobo para um cordeiro sobre uma nova organização do pasto.

Parece que a coluna não cita deliberadamente a carnificina que virou o oriente médio, preferindo a romântica argumentação sobre "política como reconstrução dos afetos". A coluna parece seguir dois preceitos trotskistas: "A única virtude moral que temos de ter é a luta pelo comunismo" e "Devemos dar um fim, de uma vez por todas, à fábula acerca do caráter sagrado da vida humana", ambos citados por Arnaldo Jabor na sua coluna de hoje no Estado de São Paulo intitulada "O perigo vermelho".

Uma frase do Jabor, resume bem o que estou tentando dizer aqui: 'No Brasil, a palavra "esquerda" continua o ópio dos intelectuais. Pressupõe uma "substância" que ninguém mais sabe qual é, mas que "fortalece", enobrece qualquer discurso. O termo é esquivo, encobre erros pavorosos e até justifica massacres.' 

Seria ético falar "reconstrução dos afetos" diante de milhares de mortes e massacres como os que hoje se vê na Síria? Que tipos de idéias levam a construção de um discurso desse, uma espécie de trotskismo travestido de psicanálise?

Não estou dizendo que mudanças não devam acontecer, que ditadores não devam cair, não é isso. Mas é o discurso produzido por uma elite acadêmica que versa o mundo de suas cátedras. É possível? Sim. É ético? Creio que não.

Quero terminar com uma frase da coluna de ontem do Luis Felipe Pondé na Folha de São Paulo: "A verdade do homem não está no que ele diz, mas no que ele faz em nome do que ele diz."  Em nome de que ou de quem se chama carnificinas de "reconstrução de afetos" e as reações à ela de "medo da errância"?

Ale Esclapes

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